2.9.09

cross the line

Goza estes dias como se fossem os últimos e apercebe-se disso enquanto caminha. O sinal que viu na porta das traseiras da estação de comboios no dia anterior entristeceu-o. A partir da próxima segunda-feira, esta porta estará fechada por razões de segurança. A entrada será feita pela porta principal da estação. Era de esperar. Há muito que imaginava um qualquer terrorista a entrar por aquela porta não vigiada e a colocar uma bomba por baixo de um comboio. Até pensou denunciar aquilo a uma televisão, pela piada e por o irritar a negligência, mas não, preferia ter a porta aberta. No entanto, nunca percebera porquê. Passar por aquela porta e atravessar a linha de comboio, antes dos apeadeiros da estação, poupava-lhe tempo. E isso agradava-lhe. Mas era algo mais. Também não era por alimentar o seu lado rebelde, entrando por uma porta destinada apenas a funcionários, que aquele caminho o animava quando ia para o trabalho ou voltava para casa. Mas o sinal -lo ver a razão da nostalgia antecipada. Atravessar a linha de comboio transportava-o para outra dimensão, uma dimensão rural, onde a protecção e as restrições à movimentação das pessoas são menores. Onde nem tudo é ruas e os jardins não estão cercados e com placas que proíbem que sejam pisados. A linha de comboio e o atravessá-la, permitia contrariar a rotina e, durante os 20 segundos que dura a passagem das linhas quase fechava os olhos e imaginava que não estava a ir para o trabalho, mais uma vez. Ao invés, a sua mente fugia e refugiava-se na sua juventude, quando passeava pelas quintas dos seus avós, a procurar aventuras e chegava ao fim do dia com as calças cheias de terra e a cabeça repleta de histórias imaginadas.

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